“Eu só quero é ser feliz, ser a favela modelo que o prefeito tanto diz…”

da revista Vírus Planetário

Você sabia que a conta de luz na favela é mais cara que no asfalto? Você sabia que, como já dizia um amigo meu do Chapéu Mangueira, só quem não pode ouvir o funk é justo aquele que o inventou? Que o pico do Santa Marta está com casas marcadas para remoção, já traçado seu futuro turístico entre jeep tours exploratórios e vistas panorâmicas de uma cidade cujos visitantes não devem sequer saber como temos tentado resistir a seu modelo?

Em uma cidade olímpica, já sabemos quem está autorizado a estar entre as medalhas, as licitações, o mercado turístico. Os guias comunitários estão cansados, se pessoas de fora querem nos conhecer, nós é que queremos lhes apresentar o nosso morro. Coisas simples, mas que as empresas e o governo ignoram em favor de seu próprio lucro guardanapiniano. Afinal, a quem interessam as remoções, a regularização, a pacificação? Os albergues e hotéis que se erguem ao redor deixam ilustrações.

 

Valores que chegam com o modelo de cidade competitiva surgem em conflito com os espaços das favelas, que se produziram historicamente pela cooperação, os mutirões, a solidariedade, os saberes locais. Nos morros não é como debaixo das marquises de alguns prédios do asfalto, onde pessoas dormem com fome enquanto outras passam com pressa, tolerando aquela imagem já repetitiva. O morro é feito de luta, de pessoas que se juntam e fazem. Foi reconhecendo essa força, essa dimensão coletiva e comunitária, que resolveram interditar. Assim fecharam a Rádio Comunitária do Santa Marta em 2011, assim como várias rádios comunitárias após a implementação das UPPs, como parte dos eufemismos de atualmente, para não precisar falar de perseguição. Certas palavras não podem mais circular; certas canções, certas forças. “A verdade é dura, a UPP também é ditadura!”, gritaríamos mais tarde.

Como em qualquer outro lugar, existências não querem ser pacificadas enquanto são exploradas ou iludidas. O morro tem sido sufocado por um suposto Estado de paz que despotencializa o reconhecimento dos moradores de seu próprio poder de transformação e reivindicação, estes que ergueram seu lugar. Assim surge um ato. A concentração foi ali embaixo, na pracinha da entrada do morro, na Rua São Clemente, em Botafogo. Segunda-feira, dia 08 de Julho de 2013.

Com cartazes molhados, os manifestantes saíram ainda sem saber como seria a recepção pelo Bairro, se os vizinhos de Botafogo piscariam a luz como fora na Rio Branco e na Presidente Vargas. Não era possível saber ainda como seria o encontro do Alto com o Baixo de Botafogo, o encontro daqueles cujos filhos estudam nos mais renomados colégios da cidade com aqueles que abrem as portas dos prédios e cuidam destas mesmas crianças durante a tarde.

O protesto estava plural, contagiante. Tinha aquela senhora numa esquina que gritava em apoio coisas sobre o Cabral, aqueles curiosos pelas janelas dos ônibus, uma classe média que se juntava pelo caminho. O povo da rua já era mistura, e ia crescendo e crescendo, rumo ao Largo dos Leões as moças de dentro dos salões de beleza já fechados faziam coro e torcida para que pudéssemos gritar ainda mais alto. E tinha os jovens. Havia aqueles jovens! Destemidos, na cara no cordão policial, dizendo mundos e desmundos sobre a UPP. Aqueles jovens do Santa Marta. Coragem? Jamais nos pacificamos.

“Chega de chacina, polícia assassina!” – moradores de outras comunidades também estavam lá, e juntos ao coro, a Maré também resistia. Aldeia Maracanã, presente. E pautas preenchiam faixas e melodias. Chega de remoção! Chega de dizer por aí que somos favela modelo quando há esgoto a céu aberto. Cartazes perguntavam “Modelo de Que?”. Crianças gritavam por mais educação enquanto aprendiam a fazer passeata, e se divertiam com essa… essa.. como chama? Seria a tal liberdade de expressão? Ou Livre Manifestação? A descoberta era alegre. Os pequenos tinham um gogó e tanto. Pulavam “Sai do chão, sai do chão, quem é contra o caveirão!”. A força vinha do estar lá, de se descobrir junto.

Os pequenos, os grandes, as matriarcas, os chamados líderes, os cantores, os estudantes, o pessoal das fotos e das filmagens: ninguém desistia mesmo com a chuva apertando.“Pode chover, pode molhar, mesmo assim nós vamos protestar” – diziam. Já éramos uns 300. Sem guarda-chuva, nos abrigávamos na própria água que corria nos rostos, lembrando que não seria ali, no meio de um engarrafamento no coração da zona sul que o gás ia ser espraiado ou que a bala ia zunir.

Se zunissem, as balas do baixo não são as balas do morro. A primeira bate e quica a segunda bate e fica. Como dizia a faixa “A Polícia que reprime no asfalto é a mesma que mata na favela”. Essa sensação gerou a explosão. Então, que se exploda! A oportunidade não foi perdida. Ouviu-se um grande barulho.

Não era a pólvora (hoje não), mas eram gritos. Dessa vez o grito era invertido, ele vinha de quem corre e se esconde, que sofre revista e toma tapa, que tem que desligar o som e abaixar a cabeça. Hoje o grito veio de quem ouve. O grito do jovem eclodia “Uh-Pepê, vai se f..”. Acho que deu para entender a rima (sic).

A ironia fez parte do ato de ontem, quando o Santa Marta desceu pra cantar, quando o grito já não bastava: “A luta é antiga amigo, já estamos nessa luta há muito tempo”, diziam. Um morro que existe há 80 anos só quer continuar a existir. A pergunta que tanto o governador quanto o prefeito não respondem é uma: porque isso tem de ser impedido? Os que devem responder foram lembrados algumas vezes, sendo marcantes nos cânticos “Cabraaal, queria que você… Cabraaaal, queria que você… investisse em educação e esquecesse a UPP! Investisse em educação e esquecesse a UPP!” ou quando diziam “Ô Eduardo Paes, vai pro inferno e remove o satanás!”.

Falavam ao final em spray de pimenta. Vimos um menininho revidando com um spray desodorante. O ato levou quase 3 horas pela São Clemente e na volta pela Voluntários (da Pátria). O ato foi pacífico? A resposta é não. Este foi feito de corpos em recusa, de corpos que não estão em paz quando há uma política de remoções e ameaças, uma especulação imobiliária, um projeto falido de segurança pública. Paz sem voz é remoção – um medo – da remoção de casas, de histórias, de uma ousadia de existir – e de teimar em ficar.

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