AMILCAR LOBO: O “MÉDICO” DA DITADURA, O ASSESSOR DE TORTURA

 

 

 

O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, mais uma vez, vem se manifestar sobre a participação de Amilcar Lobo no aparato repressivo que funcionou no Brasil durante a ditadura civil-militar (1964-1985).

 

Histórias já contadas necessitam ser constantemente lembradas; fatos já publicizados necessitam ser repetidos sob pena de cair no esquecimento. Portanto, é fundamental lembrar alguns fatos de nossa história recente que estão sendo esquecidos e, mesmo, recontados de maneira perversa. Amilcar Lobo, ex-médico e aspirante a psicanalista não prestava simplesmente “serviço militar obrigatório no Exército”. Sabemos que somente pessoas de confiança da repressão tinham acesso ao DOI-CODI/RJ, centro unificado da repressão em nosso estado, nos anos de 1970. Amilcar Lobo era muito mais que isto: era membro do aparato de terror, assessor de tortura, peça importante para o funcionamento desta máquina mortífera. Vamos aos fatos.

 

Em 1970, Cecilia Coimbra, fundadora e atual Vice-presidente do GTNM/RJ, esteve presa por quatro meses no DOI-CODI/RJ. Naquele período, presenciou o papel desempenhado por Amilcar Lobo naquele centro de torturas. Um exemplo perverso de sua participação foi a preparação que fazia de uma ex-presa política grávida — que se encontrava em sua cela — quando, pessoalmente, ministrava soro em sua veia antes de ser levada para tortura com choques elétricos. Como os demais torturadores, usava um esparadrapo para impedir sua identificação. Entretanto, Cecilia soube de seu nome através de um receituário esquecido por ele em sua cela. Ao sair, procurou pessoas a quem pudesse denunciá-lo. Conheceu à época, a psicanalista Dra. Helena Besserman Vianna que, corajosamente e apesar de ser perseguida, conseguiu fazer a denúncia contra Amilcar Lobo no exterior ainda durante a ditadura em 1973.

 

Em 1981, a ex-presa política Inês Etienne Romeu denunciou publicamente a existência de uma casa clandestina de torturas ligada ao Centro de Informações do Exército, a “Casa da Morte”, em Petrópolis (RJ), da qual foi a única sobrevivente. Apontou, na ocasião, a presença regular de Amilcar Lobo naquele local de torturas. No dia seguinte a esta denúncia, o advogado Dr. Modesto da Silveira, Cecilia Coimbra e vários outros ex-presos políticos estiveram no consultório de Amilcar Lobo e, diante da imprensa (Jornal do Brasil à época) confirmaram este ex-médico como sendo aquele que “atendia”, no DOI-CODI/RJ, os presos políticos para garantir sua sobrevida antes, durante e depois das torturas. Naquele mesmo ano, a OAB/Federal tomou os depoimentos desses ex-presos políticos. Entretanto, os ministros militares do então governo Figueiredo pronunciaram-se contra o revanchismo de tais declarações que conseguiram furar a censura, que ainda existia, sendo publicados em alguns jornais, especialmente no Jornal do Brasil.

 

Somente em 1986, com os depoimentos desses ex-presos políticos enviados pela OAB/Federal, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro, abriu processo contra Amilcar Lobo. Após longas investigações, por unanimidade, cassou o registro de médico de Amilcar por crimes contra a humanidade. Em 1988, também, por unanimidade, o Conselho Federal de Medicina ratificou tal decisão.

 

Esta história e estes fatos encontram-se registrados nos livros da Dra. Helena Besserman Vianna “Não Conte a Ninguém…Contribuição à história das Sociedades Psicanalíticas do Rio de Janeiro” (Rio de Janeiro, Imago, 1994) e na versão francesa, fartamente documentada (Politique De La Psychanalyse Face À La Dictadure Et À La Torture – N’Em Parlez à Personne…” (Paris/Montreal, Edition L’Harmattan, 1997). O caso Amilcar Lobo também é citado na Tese de Doutorado de Cecilia Coimbra “Guardiães da Ordem: Uma viagem pelas práticas psi no Brasil do ‘Milagre’” (Rio de Janeiro, Oficina do Autor, 1995).

 

Por tudo isto, o GTNM/RJ reafirma sua posição de que Amilcar Lobo desempenhou um importante papel no funcionamento da máquina mortífera implantada em nosso país pelo terrorismo de Estado.

 

Pela Vida, Pela Paz

Tortura Nunca Mais!

 

Rio de Janeiro, 23 de maio de 2013.

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