“Essa Kizomba é nossa Constituição”

Na noite da última segunda-feira (20), o mandato do vereador Renato Cinco (PSOL/RJ) concedeu a medalha Pedro Ernesto aos seis trabalhadores escravos que reflorestaram a Floresta da Tijuca. Na mesma ocasião, foram entregues moções aos membros do Movimento Negro que organizaram a Marcha da Farsa da Abolição, ocorrida em 11 de maio de 1988, que completa 25 anos.

Cento e cinquenta e dois anos após Eleutherio, Constantino, Maria, Manoel, Leopoldo e Matheus iniciarem o reflorestamento do que hoje conhecemos como Parque Nacional da Tijuca, finalmente, o trabalho desses negros escravizados foi reconhecido. O mandato do vereador Renato Cinco (PSOL/RJ) concedeu a maior honraria da Câmara dos vereadores aos nossos seis heróis.

Foi uma bonita homenagem àqueles que salvaram nossa cidade de um desastre ambiental e de secas terríveis. A cerimônia alegre e colorida foi animada pelos músicos Nina Rosa, Bil-Rait “Buchecha”, Rafa Moraes e Diego Medeiros, que interpretaram as canções “Kizomba” e “Canto das Três Raças”, além de “Mal Estar”, esta de composição própria.

O deputado federal Chico Alencar saudou a iniciativa.

“Parabenizo o Cinco e a sua equipe por essa justa e inédita homenagem, pela quantidade e a qualidade dos homenageados. Todos que estão aqui representam os escravos que reflorestaram a Floresta da Tijuca. Sairemos daqui engrandecidos.”

A militante do Movimento Negro Luciene Lacerda ressaltou a importância da luta negra.

“Devemos contar a nossa história. Temos que continuar lutando. A gente ainda luta contra a enorme mortalidade materna, a falta de creches e a violência cotidiana e da polícia contra nós negros.”

O único descendente dos homenageados presente, o professor Amaury Fernandes, estava emocionado.

“Engraçado, para mim, ele sempre foi vovô Leopoldo. Desde pequeno escuto as histórias do reflorestamento, ouvia da minha avó e hoje passo para as minhas filhas. Sempre tive orgulho de ser descendente de um dos homens que reflorestou aquele maciço. Aquela floresta é uma memória viva da minha família. Agradeço ao Renato por lembrar a história do meu avô; que este seja o início para a gente resgatar a memória de quem construiu esse país de verdade.”

Diferentes integrantes do movimento negro, como o Círculo Palmarino e o Instituto Búzios, prestigiaram o evento. Representantes do MST, do PACS, comunicadores do Núcleo Piratininga de Comunicação, membros dos partidos PCB e PSTU e o vereador de Niterói pelo PSOL Renatinho também compareceram à cerimônia.

Palestraram também Deley de Acari e Elias José Alfredo, um dos organizadores da marcha contra a farsa da abolição, que se chamou “Nada mudou, vamos mudar!”.

O vereador anfitrião do evento, Renato Cinco (PSOL), que esteve presente na Marcha de 1988 ainda muito jovem, lembrou os erros históricos cometidos com os negros, que se repetem até os dias de hoje.

“Há 125 anos, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea e aboliu formalmente a escravidão no Brasil. Mesmo com a suposta abolição, a vida dos negros continuou muito difícil. O mínimo que o Estado deveria ter feito era garantir a indenização justa, para permitir que aqueles trabalhadores e trabalhadoras se emancipassem de fato. Nos dias de hoje, apesar da persistência do mito da “democracia racial”, os negros ainda são vítimas do preconceito. A população negra saiu da senzala, mas, na sua imensa maioria, não saiu da pobreza. A classe trabalhadora mais precarizada tem cor. Ao homenagear os organizadores da Marcha, resgatamos a importância histórica daquela manifestação e reafirmamos a necessidade de manter firme a luta contra o racismo e todas as formas de discriminação. Quanto aos negros que reflorestaram a Floresta da Tijuca, o trabalho destes trabalhadores escravizados não pode ser esquecido. Eles são símbolo da história que queremos contar. Nossa história não é apenas a história dos opressores, que predomina nas narrativas oficiais. As lutas por liberdade do povo negro e sua história não podem mais ser esquecidas ou silenciadas.”

Moções de Louvor foram entregues aos representantes do Movimento Negro.

Quase no final da cerimônia, um show de bailarinos, que movimentavam o corpo todo ao som de tambores e bumbos, coloriu a Câmara do Rio e fez a plateia toda dançar, era o grupo Orunmilá.

Depois da apresentação, Reinaldo Rosa Pires, um dos funcionários mais antigos do Parque, representando os negros escravizados, recebeu das mãos do vereador Renato Cinco a medalha Pedro Ernesto.

“Quero agradecer também em nome de todos os funcionários do Parque Nacional da Tijuca que preservam aquele santuário ecológico.”

A cerimônia foi encerrada pelo grupo Afoxé Filhos de Gandhi, que atravessou o plenário cantando e dançando e levou, numa só balada, toda a plateia para o hall central do Palácio Pedro Ernesto, onde a cerimônia de fato terminou.

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