Entrevista com Gustavo Mehl, do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas

Esta entrevista com Gustavo Mehl foi realizada no dia 9 de maio, pelo Mandato Renato Cinco, quando a licitação do Maracanã foi finalizada. Logo em seguida, uma liminar, que ainda está em vigor, suspendeu processo até que ocorresse o julgamento da ação movida pelo Ministério Público.

Ontem, 15 de maio, o Comitê Popular lançou o dossiê Megaeventos e violações dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro. Baixe o documento aqui.

1)           A concessão do Maracanã já está em fase final e tudo indica que Odebrecht, IMX e AEG sairão vencedoras. Qual a opinião do Comitê sobre isso, visto que essas empresas já são muito conhecidas nas suas relações com o poder público? Para lembrar: Marina da Glória e SuperVia, e o próprio Engenhão.

A gente tem uma postura muito parecida com o que está na própria ação do Ministério Público. Inclusive prestamos informações ao MP sobre os indícios de favorecimento e de acesso a informações privilegiadas que a IMX tinha, por ter feito o projeto de viabilidade que baseia o edital de concessão. A ação está correndo; é importante deixar isso claro, que hoje se concluiu o processo de licitação, mas ações seguem correndo na justiça. Continua válida, por exemplo, a liminar, que está dentro dessa ação do Ministério Público, que impede a demolição do Júlio Delamare. É uma liminar, há a possibilidade de que ela caia, mas ela segue em vigor. Hoje é o fim desse processo de licitação do governo, mas, na esfera jurídica, não há nada certo.

2)           Qual é a mobilização dos atletas nas causas que o Comitê defende? Ciclistas já estão sem velódromo e, no caso do Maracanã, os nadadores ficarão sem o Parque Aquático Júlio Delamare, e os atletas de atletismo já estão sem o Célia de Barros.

Diversos atletas, treinadores, professores, pessoas que utilizavam os projetos sociais do Célia de Barros e do Júlio Delamare, se envolveram nessa mobilização contra a privatização do Maracanã. Houve uma manifestação unânime, de todos os atletas, tanto dos esportes aquáticos, quanto do atletismo, contra a demolição desses espaços públicos. Posso citar duas manifestações que tiveram uma visibilidade bacana: o Atletas pela Cidadania, que teve assinaturas de atletas de peso, como Raí, Dunga, Cafu; gente do futebol, de diversas modalidades; e o Troféu Brasil, que foi realizado no Maria Lenk e articulado pela Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos, com todos os maiores nomes dos esportes aquáticos no Brasil, como Tiago Pereira, Cesar Cielo, que se manifestaram contrários à demolição do Júlio Delamare. O governo simplesmente passa um trator, ignora não só os atletas, mas diversas outras entidades, grupos da sociedade civil, pessoas que se relacionam diretamente com o Maracanã, se manifestam contrários a essas demolições. Essa falta de transparência, de diálogo e de participação popular é uma coisa que a gente observou desde o início do processo do Maracanã.  Diante desse autoritarismo, a gente fez uma consulta pública sobre o Maracanã; essa iniciativa é na verdade uma tentativa de dar o recado; para o Comitê Popular, política se faz assim, abrindo canais de diálogo e espaço de participação, e incorporando essas propostas que surgem da sociedade civil nos projetos de governo. Se o governo não fez isso, lá em 2009, quando começou a se falar de uma reconstrução no Maracanã e a se aventar a possibilidade de privatização do Maracanã, nós estamos fazendo. Isso é papel do governo, que deveria ter feito consultas há pelo menos três anos. Alguns exemplos de autoritarismo são claros nesse processo, por exemplo, em janeiro de 2012, a IMX concluiu o projeto para o Maracanã, então a gente pode afirmar que desde janeiro o governo já sabe que existia a previsão de demolição da escola e dos dois equipamentos esportivos, além do prédio do antigo Museu do Índio. O governo teve 10 meses para procurar os grupos que iam ser prejudicados por essas demolições e buscar melhores caminhos, procurar diálogo, abrir processo de negociação, mas isso não foi feito. Então professores, alunos e pais da Escola Friendenreich, os atletas, as pessoas beneficiadas pelos projetos sociais do Júlio Delamare e do Célia da Barros, os próprios indígenas e os grupos de torcedores ficaram sabendo dessas previsões de demolições, através da imprensa, no dia 22 de outubro, quando o governo anuncia a minuta do edital que é baseada no projeto. É importante lembrar que era um ano de eleição, reeleição para o prefeito  Eduardo Paes. Logo depois que foi concluída a eleição, o governo divulga a minuta do edital, sem ter conversado com nenhum desses grupos.

3)           Tivemos algumas vitórias, mas tudo indica que o governo vai demolir mesmo a Escola Friendenreich, e que o Museu do Índio não servirá mais aos índios. Você citou a consulta pública promovida pelo Comitê, como está essa iniciativa?

Na consulta pública, as pessoas podem participar para discutir o estádio, discutir a escola, sugerir propostas base. Existe um texto base na consulta, sobre o qual as pessoas podem dar suas opiniões ou mesmo propor novas medidas. O endereço da consulta pública é: consulta.omaracaenosso.org.br; e ela fica no ar até o dia 15 de junho, dia de estreia do Brasil na Copa das Confederações.

4)           Diferente das Olimpíadas, a Copa do Mundo acontecerá em todo o país. Existe uma mobilização nacional com outras cidades-sede?

Sim, o Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro é um dos comitês populares da Copa, que estão formados nas 12 cidades-sede e que se articulam nacionalmente através da ANCOP (Articulação Nacional dos Comitês Populares). É a primeira vez que um país que recebe a Copa do Mundo tem uma articulação nacional desse tipo, e a ideia é formular ações coletivamente e integradas nos diferentes estados.

5)           O Maracanã teve mais um aditivo de 200 milhões, que é mais do que a concessionária pagará nos 35 anos. Quais serão os próximos passos do movimento?

Atravessamos a casa do bilhão de reais, como há muito tempo a gente já denunciava. É óbvio que todos esses aditivos já estavam previstos e agora é feito de maneira não transparente. Não sabemos para onde vão esses custos e as razões de cada aditivo. O principal argumento que historicamente é usado aqui no Brasil para a privatização dos espaços públicos e especificamente para a privatização de estádios de futebol ou de áreas de lazer é a desoneração dos cofres públicos. O que se fala é o que o Estado não tem que cuidar de estádio de futebol porque isso onera os cofres públicos, mas o próprio estudo da IMX, empresa do Eike Batista, apresenta o dado de que o Maracanã Público gerava 12milhões de lucro ao Estado por ano, e a minuta do edital, baseada nesse mesmo estudo, pede 4,5 milhões ao ano. O consórcio de que o Eike e a Odebrecht fazem parte oferece 5,5 milhões ao ano; isso, ao final de 35 anos dá 181milhões, e em menos de três anos gastamos 1 bilhão e 120 milhões. Para ter uma ideia, ao final desses 35 anos, a gente não vai conseguir pagar nem os juros dos financiamentos que foram feitos para fazer essa reconstrução. Avaliando desde 1999, nas seguidas reformas do Maracanã e do Júlio Delamare, do Maracanazinho, e se somarmos tudo a gente chega a quase 2 bilhões de reais para um retorno que é irrisório. O governo tem que vir a público para explicar essa conta, porque ela não fecha.

6)           O Maracanã foi construído em 1950 e nunca teve um problema estrutural, São Januário foi construído nos anos 20 e também nunca teve problemas; já o Engenhão tem apenas seis anos e foi interditado, e é importante lembrar que as empreiteiras que construíram o João Havelange são as mesmas que hoje reformam o Maracanã. Como o Comitê avalia isso e qual é a impressão que essas manobras políticas passam para o restante do mundo?

Para a imagem do Brasil pega super mal. A gente se pergunta por que o Engenhão que consumiu tanto dinheiro público e foi propagandeado como um dos estádios mais modernos do mundo, em tão pouco tempo tem que ser interditado. Novamente o Engenhão será fechado e passará por reformas, isso é mais dinheiro vazando dos cofres públicos. O próprio Maracanã será novamente fechado para reformas estruturais depois da Copa, para as Olimpíadas. O Parque Aquático Júlio Delamare foi reformado recentemente para o Pan e será demolido, da noite para o dia, numa decisão que se deu sem nenhuma consulta. Tem o caso do Velódromo, o caso do Maria Lenk, que também passará por reformas estruturais, o Parque Olímpico, que depois das Olimpíadas vai ser destinado a outras funções, que não serão desportivas. A construção de equipamentos esportivos no Rio de Janeiro claramente tem uma qualidade questionável, não atende ao interesse público e tampouco ao interesse desportivo, mas, sim, a interesses de empreiteiras.  

7)         No próximo dia 14, o Comitê Popular da Copa e Olimpíada apresentará o Dossiê de Violação dos Direitos Humanos, na ABI. Qual é a importância desse dossiê e do lançamento dele?

O Comitê Popular da Copa faz regional e nacionalmente um processo de documentação dessas violações de direitos humanos que estão acontecendo no contexto da Copa do Mundo e das Olimpíadas. A importância desse processo é usar esses documentos e relatórios como arma política para conseguir mudanças nessas transformações urbanas que estão acontecendo e desses aportes de recursos que acontecem de forma questionável e não-transparente. É muito importante registrar e documentar todo esse processo, porque muitas coisas se perdem com o tempo. O Maracanã precisa ser situado como um caso simbólico de uma perspectiva que se reflete no dossiê, uma perspectiva de que as transformações urbanas que acontecem para Copa e para as Olimpíadas são claramente para um projeto de cidade, que reforça algumas centralidades, cria outras e assume cada vez mais algumas áreas da cidade como zona de sacrifício. A zona sul é reforçada mais uma vez como uma grande centralidade da cidade, uma área de interesse para os negócios, para o capital. A zona portuária entra como novo roteiro “revitalizado”. O entorno do Maracanã se consolida como novo centro comercial e turístico da cidade, e tem ainda uma nova centralidade sendo cada vez mais consolidada na Barra da Tijuca. As remoções forçadas, que acontecem no caminho da Copa e das Olimpíadas, a forma com que o governo tira das áreas de interesse e invisibiliza os pobres, jogando comunidades inteiras para as zonas norte e oeste, foi documentada no dossiê. Registramos ainda o recolhimento compulsório, que acontece de forma indiscriminada na zona sul, na Barra da Tijuca e no Centro, e o choque de ordem que serve somente para perseguir os trabalhadores informais. Essas ações reforçam a ideia de dois Rios, um turístico, de negócios, das classes ricas e, por outro lado, um Rio onde vive a maioria da população que não tem saneamento básico, moradia digna, transporte garantido e que muitas vezes têm os seus direitos retirados.

8)            A Associação Brasileira de Imprensa e a Frente Nacional dos Torcedores fazem a campanha Fora Marin no Avaaz, e o Ricardo Teixeira renunciou à CBF. Como o Comitê vê essas movimentações no futebol brasileiro?

Vou começar pelo Maracanã para chegar à sua resposta. O Maracanã não é um simples estádio de futebol, mas sim um grande símbolo mundial, símbolo da cidade, um espaço que virou emblema da participação popular. Desde a sua construção, no final da década de 1940, houve um debate em que um lado, capitaneado pelo jornalista Mario Filho, defendia um estádio monumental, grandioso, em que coubesse o máximo de pessoas possíveis, com essa perspectiva de acesso das diferentes classes sociais. O Maracanã não se tornou esse símbolo de participação popular à toa; a “geral” não foi construída à toa. Isso foi pensado e debatido. Houve uma vitória dessa perspectiva de um estádio popular, onde as diferentes classes pudessem conviver e durante décadas isso se consolidou de forma muito interessante. Diferentes gerações aprenderam a se relacionar com a cidade através do futebol. Foi ali onde pessoas de classe média, ou de classe mais alta aprenderam que a cidade do Rio de Janeiro não é o seu bairro; no Maracanã, essas diferentes realidades conviviam, se abraçavam e choravam. No final da Copa de 1950, os registros indicam que 203 mil pessoas assistiram ao jogo, ou seja, 8,5% da população. Quantos serão os brasileiros que estarão numa eventual final de 2014, e quais serão? No final da década de 1980, começa uma grande campanha, utilizando a argumentação da violência e do pseudoconforto, pela modernização do futebol, que nada mais é do que a elitização do futebol. Grandes corporações de mídia participam e patrocinam essa elitização, um futebol cada vez mais espetacularizado. Hoje existem dois lados, um que reforça o futebol no estádio e como espetáculo popular, e outro que defende um torcedor consumidor, espectador, e os estádios como algo mais exclusivo para os que podem pagar. O fato é que o antigo torcedor popular, que juntava um real para assistir o seu time, hoje se acotovela nas esquinas para ver o payperview, que é pago pelo dono do bar. A Confederação Brasileira de Futebol tem uma relação muito evidente com a Fifa, e as duas trabalham nessa elitização do futebol, numa perspectiva de negócio, dialogando com o grande empresariado que se beneficia do espetáculo futebol. Esse novo processo, do futebol-evento, gera muita corrupção, a cada dia vêm novas denúncias sobre o papel que a Fifa cumpre, e a CBF também. A queda do Ricardo Teixeira foi uma vitória, mas o Marin segue a mesma linha do seu antecessor. 

9) Como você avalia a proposta da Bancada do PSOL de mudança do nome do Engenhão para João Saldanha?

Acho uma iniciativa muito legal e fundamental. Não podemos permanecer louvando grandes mafiosos da história do Brasil e dando seus nomes a espaços públicos, como é o caso do Engenhão, que é um equipamento feito com o dinheiro público.

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