Campanha “Fora Marin” é lançada na ABI

Por Daniel Mazola, jornalista e Conselheiro da ABI, secretário da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da entidadecampanha fora MARIN

A Frente Nacional dos Torcedores e a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa promoveram, na noite do dia 3 de maio, o ato de lançamento da campanha “Fora Marin – Regulamentação Desportiva Já”, pela destituição de José Maria Marin do cargo de Presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O evento foi realizado na Sala Belisário Távora, no 7º andar do edifício-sede da ABI.

A campanha “Fora Marin” se deve aos ataques desferidos por Marin, quando o deputado estadual pela Arena de São Paulo, contra profissionais de imprensa da TV Cultura, dias antes da prisão e posterior assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, nas dependências do DOI-Codi-SP. Vlado chefiava o jornalismo da emissora.

Na ocasião, conforme documentação dos arquivos da Assembleia Legislativa paulista, Marin pediu providências às autoridades contra o jornalismo da TV Cultura e teceu elogios a Sergio Fleury, delegado do Dops de São Paulo.

Participaram do evento na ABI João Hermínio Marques, Presidente da Frente Nacional dos Torcedores (FNT); Vitória Grabois, Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais; Mario Augusto Jacobskind, Presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI; Continentino Porto, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro (SJPERJ); Aderson Bussinger, representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ; o historiador Raul Miliet; o Deputado Estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e os deputados federais Chico Alencar (PSOL-RJ), Alessandro Molon (PT-RJ) e Fernando Ferro (PT-PE), autor da PEC 202/2012, que prevê a inclusão na Constituição de princípios para a organização desportiva no País. A proposta foi formulada a partir de sugestão (SUG 40/11) da Frente Nacional dos Torcedores (FNT).

Convidados para o encontro, os ex-jogadores de futebol Afonsinho e Romário, que é Deputado Federal (PSB-RJ), não puderam comparecer. O economista e professor Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, e Ivo Herzog manifestaram em vídeo apoio ao movimento “Fora Marin”.

“É ultrajante imaginar essa pessoa como anfitrião da Copa de 2014, recebendo centenas de autoridades internacionais em nome do nosso país. Por conta disso, iniciei uma petição na internet pedindo a saída de Marin da CBF, com o que o futebol brasileiro ganhará dignidade”, afirmou Ivo Herzog.

Mario Augusto Jacobskind, Presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI, abriu a cerimônia saudando a plateia formada em sua maioria por jovens: “A ABI está presente nesta luta. Nós, jornalistas, não podemos concordar com a presença deste senhor à frente da CBF, lembrando o seu passado de comprometimento com a ditadura e com o assassinato de Vladimir Herzog. É importante que o Rio de Janeiro se manifeste e se posicione contra esta situação na CBF, que apesar de ser uma entidade privada, representa o nosso futebol. É lamentável que após a saída de Ricardo Teixeira, em um cenário de corrupção, enfrentemos agora a figura de Marin. Esperamos que esta campanha se multiplique”.

O deputado Chico Alencar falou em seguida sobre a mobilização da juventude em torno da campanha: “É comovente ver tantos jovens na plateia da ABI e sua centenária trajetória contra a ditadura e em defesa dos direitos humanos. Muitos movimentos encabeçados pela Associação aconteceram em uma época em que os jovens aqui presentes não eram nascidos. Vocês estão resgatando aspectos da história brasileira. Estamos unidos pelo amor à democracia e ao futebol como traço da cultura brasileira e elemento de eficaz integração social das nossas crianças e contra a violência”. O parlamentar lembrou que o discurso de José Marin na Assembleia Legislativa de São Paulo foi marcado pela apologia à repressão e à restrição à liberdade de imprensa. “Eles criticavam a TV Cultura que era uma réstia de jornalismo crítico de qualidade no Brasil daquela época. Enquanto o futebol era usado para reforçar ideologicamente o regime, centenas de militantes eram torturados e mortos nos porões da ditadura. Marin representava a extrema direita e a linha duríssima do regime. Precisamos regulamentar as atividades desportivas, em intervencionismo, em nome do interesse público e da transparência. Quem foi cúmplice da tortura e da corrupção não pode estar à frente do futebol brasileiro.”

Transparência

Relator da PEC 202/2012 na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ), o Deputado Alessandro Molon assinalou os avanços da proposta junto ao Congresso Nacional. O representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Aderson Bussinger, classificou como indigna a presença de José Marin na CBF e incoerente com o movimento pela memória, verdade e justiça no Brasil: “A OAB entende que esporte, educação e direitos humanos estão interligados. Temos um compromisso com a defesa da democracia e das liberdades. José Marin na presidência da CBF representa um desrespeito ao esporte e ao momento em que estamos apurando a participação de militares e civis na tortura, no sequestro e nas mortes durante a ditadura. A figura dele na CBF é incompatível, indigna e inaceitável. Os insufladores também são responsáveis pelo assassinato de Vladimir Herzog. Queremos o Marin na Comissão Nacional da Verdade, respondendo pelos seus atos, e mais adiante na justiça, sendo responsabilizado pela colaboração com a ditadura”.

Para o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), o afastamento de José Marin da CBF está relacionado ao amplo debate sobre a democracia: “Qualquer pessoa que tem alguma responsabilidade sobre o que foi a ditadura não pode ocupar cargo público e deve responder por isso. Acabamos de ter o afastamento de João Havelange, diante de uma crise brutal. Ele renunciou no momento em que está sendo investigado sobre uma denúncia de R$ 45 milhões em favorecimento dele e de Ricardo Teixeira, seu ex-genro, através da ISL, marketing esportivo que comprovadamente ganhou os direitos de diversas copas do mundo por meio de fraudes na Fifa. Na democracia, Marin representa a imagem da ditadura; no futebol, a escola de Havelange e Ricardo Teixeira”.

Vitória Grabois, do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, expressou solidariedade ao movimento pela destituição de José Marin da presidência da CBF e estimulou a participação popular na campanha: “Há 28 anos, a nossa entidade luta pelo resgate da memória, da verdade e da justiça. Estou feliz em ver tantos jovens presentes neste evento. A participação da sociedade em torno desta campanha é primordial para o seu sucesso”.

Elitização

A mobilização da classe jornalística contra a presença de José Marin na CBF foi detalhada por Continentino Porto, representante do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro (SJPERJ): “O sindicato, juntamente com a ABI, está presente nas manifestações contra José Marin. Durante um seminário promovido pela Fenaj em janeiro último, em Porto Alegre, apresentamos um documento considerando José Marin persona non grata para os jornalistas de todo o Brasil, exortando diretores e editores dos veículos de comunicação do país a informar leitores, ouvintes e telespectadores sobre o que ele representa”.

A sustentação de nomes como José Marin, Ricardo Teixeira e João Havelange no comando do futebol brasileiro estaria correlacionada a forças políticas favoráveis, grifou o historiador Raul Miliet: “Na década de 90, houve uma elitização da política de esportes do governo federal. A realização de megaeventos foi contemplada em detrimento da política de democratização esportiva. Neste sentido, você abre brecha para pessoas como Havelange, Ricardo Teixeira e José Marin. Com o dinheiro gasto em Pan-Americano, Olimpíada e Copa do Mundo, você colocaria milhares de crianças em escolas de maneira adequada”.

Autor da PEC 202-12, o Deputado Fernando Ferro assinalou a relação histórica entre futebol e política, e chamou a atenção para a falta de apoio ao esporte popular: “Gostaria de expressar a minha satisfação e alegria em estar na ABI, templo sagrado da democracia para todos os brasileiros. Aqui aconteceram momentos importantes da nossa história. Manifestações políticas da maior seriedade foram aqui acolhidas ou daqui partiram. Eu gostaria de lembrar que apenas escrevi e dei corpo jurídico e legislativo a uma iniciativa da Frente Nacional dos Torcedores, que levaram a ideia da PEC. O futebol faz parte da vida do brasileiro. Como pernambucano, sou torcedor do Náutico; em São Paulo, o meu time é o Santos, e no Rio de Janeiro torço pelo Fluminense. É muito amor pelo futebol (risos). O esporte sempre foi utilizado por boas e más práticas políticas. Hitler usou o esporte para passar a ideia de superioridade nas Olimpíadas e foi derrotado por um negro. A ditadura brasileira usou o futebol, especialmente a Copa de 70, para se legitimar e buscar apoio popular. As ditaduras argentina e chilena também o fizeram. A seleção de Pinochet, por exemplo, organizou um jogo de futebol com o Santos para se promover. Perdeu de 5×0. Foi meio constrangedor (risos)”. O deputado defendeu a formulação de políticas públicas direcionadas ao futebol no âmbito socioeducativo: “Acolhi a sugestão da PEC como uma missão política. Atualmente o Estado brasileiro interfere, através do BNDES, colocando dinheiros nesses estádios, na iniciativa privada (…), que faz uso dos esportes em defesa de interesses particulares. O Estado brasileiro deve interferir com valores, ideias e apoio, não aos grandes craques, mas para aquele campo de várzea que está sendo destruído para a construção de um prédio; para o pequeno clube, para os jogadores que ganham salários miseráveis. Apenas 2% dos jogadores de futebol recebem altos salários. Há uma ação política em tudo isso. A união das torcidas, a formação do caráter, a prática da solidariedade são valores construídos no futebol. A PEC prevê que o futebol seja regido sob os princípios da democracia, da moralidade e do humanismo. Temos histórias para contar, como a do jogador Almir, que foi morto quando escrevia um livro sobre as entranhas do futebol. Afonsinho levantou a bandeira do direito ao passe. Paulo César Caju lutou contra o racismo. Sócrates é o símbolo da luta pela cidadania no futebol. Vamos avançar neste movimento por um futebol que faça parte da construção da nossa nacionalidade”.

Ao encerrar o evento, o Presidente da Frente Nacional dos Torcedores (FNT), João Hermínio Marques, revelou otimismo em relação ao movimento “Fora Marin”: “Já vimos o resultado da campanha ‘Fora Teixeira’, mas não basta trocar o nome do comandante, mas sim de todo o sistema que envolve a organização do esporte no Brasil. Defendemos a regulamentação esportiva para que sejam respeitados os trâmites legais e as políticas de defesa do interesse público e social. Não vamos admitir que agentes da ditadura manchem a nossa história”.

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