ALDEIA MARACANÃ: UMA REINTEGRAÇÃO DE POSSE VIOLENTA E DESASTROSA

Na madrugada de sexta-feira (22/03), mais de 200 policiais militares, entre eles membros do Batalhão de Choque, cercaram o prédio histórico do Museu do Índio, localizado na Rua Mata Machado, dentro do terreno do Estádio do Maracanã. O aparato policial foi mobilizado para cumprir o mandato de reintegração de posse expedido pela Justiça Federal. Apesar de o documento prever expressamente que a remoção deveria ser pacífica e auxiliada por antropólogos, as forças policiais usaram e abusaram da violência.

Do lado de dentro do prédio, cerca de 40 pessoas, entre índios e apoiadores, resistiam. As negociações foram tensas. Os policiais chegaram às três horas da manhã, acordando os índios, e mantiveram as sirenes ligadas por todo o resto da madrugada. De um lado, um grupo acuado, mas decidido a não entregar sua moradia desde 2006, e, do outro, um Estado que queria demolir o prédio e agora deseja privatizar o Casarão histórico. Em torno do prédio, estavam as ocas que os índios demoraram anos para construir.

Desde a madrugada, assessores do vereador Renato Cinco tentavam mediar o conflito e reduzir as tensões. Mesmo antes da alvorada, a Tropa de Choque usou de spray de pimenta em apoiadores da causa indígena que pediam para ingressar no prédio. Um jornalista foi atingido e preso.

Pela manhã, o vereador Renato Cinco e o deputado estadual Marcelo Freixo chegaram ao local. Os parlamentares intermediaram os diálogos entre os indígenas, os oficiais de justiça e o Estado, que só se fazia presente através de PM. A proposta inicial do governo era transferi-los para um abrigo de moradores de rua, onde seus filhos não poderiam ingressar, o que foi recusado pelos índios.

No início do dia, a Secretaria de Assistência Social ofereceu parte de um terreno, em Jacarepaguá, dentro da Colônia Curupiara, usada no tratamento de hanseníase. A proposta foi aceita por parte dos indígenas, mas um grupo não queria deixar a Aldeia Maracanã.

Para forçar a saída dos resistentes, a água e o acesso à comida foram cortados. Sem preparo, alguns policiais provocavam os manifestantes. Em um momento mais tenso, Arão Guajajara, advogado e índio, tentou entrar no prédio e foi brutalmente agredido. Os índios que observavam a tentativa de Arão receberam um jato de spray de pimenta no rosto. Uma indígena de apenas cinco anos de idade foi atingida.

No início da tarde, fagulhas da fogueira acesa como parte da tradição religiosa indígena incendiaram uma das ocas e o corpo de bombeiros foi acionado para combater as chamas. Os militares entraram e apagaram o fogo.

No final da manhã, alguns índios e apoiadores decidiram deixar o prédio. Um pequeno grupo pediu para fazer, antes da saída, uma cerimônia de despedida do terreno.

Entretanto, homens do Batalhão de Choque ignoraram os pedidos e entraram no terreno. Bateram com cassetetes e empurraram com escudos o grupo vestido apenas com camisetas e shorts, que se manifestava pacificamente do lado de dentro. O defensor público federal Daniel Macedo, o deputado estadual Marcelo Freixo e promotores do Ministério Público Federal tentaram socorrer os índios e apoiadores e também foram agredidos com jatos de spray de pimenta.

Foi uma reintegração de posse conduzida de forma desastrosa, covarde e violenta, que demonstra a triste natureza de nosso governo. O prédio está ocupado pela polícia e sem destino certo.

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